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Trigger korean drama review
Completed
Trigger
0 people found this review helpful
by KeyllaMartins
29 days ago
10 of 10 episodes seen
Completed
Overall 10
Story 9.0
Acting/Cast 10.0
Music 8.0
Rewatch Value 9.0
This review may contain spoilers

"Trigger” - Onde a Bala é Só o Começo. Drama de 2025

“Trigger”, o novo drama coreano da Netflix, não é sobre armas. Não se engane. A munição aqui não é feita de chumbo — é feita de abandono, exclusão, silenciamento, dor não nomeada e traumas que apodrecem calados. A arma? Símbolo. Metáfora. Estopim.

Este não é um thriller policial comum. Trigger é um espelho. Um campo de batalha psicológico e emocional, onde cada personagem carrega o dedo no gatilho de algo que foi negligenciado por muito tempo: a própria dor. O drama incomoda, instiga e arranca da ficção uma verdade que sangra na realidade.

A premissa é brutal e simples: caixas contendo armas de fogo começam a aparecer misteriosamente na Coreia do Sul, um país onde armas são proibidas. E do dia para a noite, pessoas comuns passam a matar. Não por vingança barata ou crime organizado mas por cansaço. Por desespero. Por não aguentarem mais.

Por trás de cada tiro, há uma história. Um jovem que sofreu bullying até perder a sanidade. Uma mulher esquecida que só queria ser ouvida. Um pai quebrado, invisível no sistema. A arma é só o canal. O verdadeiro gatilho foi apertado anos antes, quando a dor deles foi ignorada pela família, pela sociedade, pela igreja, pela escola, por todos.

PERSONAGENS
Lee Do, interpretado por um impecável Kim Nam-gil, é o coração moral da série. Um ex-militar agora policial, com cicatrizes que não são visíveis, mas que gritam a cada escolha. Ele busca justiça sem perder a ternura, mas vive o conflito entre proteger a lei e compreender quem a quebra por desespero. Ele é o espelho do espectador: você se pergunta até quando eu aguentaria?

Moon Baek (Kim Young-kwang) é o personagem mais perigoso e mais profundo da trama. Um vendedor de armas, sim mas também um justiceiro emocional, um homem dilacerado por perdas que o transformaram em estrategista da dor coletiva. Moon Baek é o caos disfarçado de redenção. Um antagonista que não se vence com algemas, porque ele já perdeu tudo. Ele não quer dinheiro. Ele quer que o mundo sinta o que ele sentiu. Ele quer queimar o sistema inteiro.

E então temos personagens secundários que roubam cenas porque… são reais demais.
Yoo Jung-tae, o certinho que colapsa. Estudantes oprimidos. Donas de casa silenciadas. São arquétipos vivos cada um é um grito abafado que encontrou um megafone.


O maior acerto de Trigger é virar do avesso a pergunta: "por que alguém mata?" E responder com um soco seco: "por que ninguém ouviu antes?"

Esse drama é um dossiê psicológico da sociedade moderna. Ele mostra que há pessoas dormindo ao lado de um vulcão emocional prestes a explodir. Que o que leva alguém a apertar um gatilho não é só raiva — é uma coleção de silêncios, abusos, desamparos, solidões.

É poético e aterrorizante pensar que às vezes uma arma é menos destrutiva do que o que vem antes dela: o desprezo, o descaso, o abandono institucional e afetivo.

“Trigger” assusta porque se parece demais com o mundo real. E não é pela arma em si é pelo estado mental das pessoas. Hoje, quantas estão prestes a explodir e ninguém vê? Quantas já explodiram e a gente só chamou de “gente louca”?

É uma crítica social travestida de série policial. A narrativa diz: se a sociedade continuar ignorando os que estão caindo, vai começar a sangrar de onde menos espera. E será tarde.

De forma quase clínica, o drama mostra o que a psiquiatria já aponta há anos: dor reprimida é pólvora emocional. A série nos mostra o que acontece quando não há acolhimento emocional, quando o cérebro vive em estado de ameaça, quando o cortisol se torna modo de sobrevivência. Cada episódio é um estudo de caso que nenhum consultório conseguiria conter.

E o mais brutal: a série não dá alívio. Não oferece finais felizes açucarados. Ela te deixa no incômodo. Porque a solução real não está na ficção está na vida. Na forma como olhamos os invisíveis, como educamos, como tratamos, como ouvimos.

A moral não é "armas são perigosas". A moral é: gente ignorada é mais perigosa ainda. Porque um corpo que sofre sem voz, vira arma. E gente não nasceu pra atirar. Gente nasceu pra amar. Mas gente ignorada... vira campo de guerra.

Trigger não é só um drama. É um alerta. Um soco ético, psicológico e social.
É a prova de que uma história bem contada pode abrir os olhos, não para as armas que matam, mas para os silêncios que constroem assassinos.

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