K-Drama meu texto já fala tudo
Eu já sabia que Ticket to Heaven ia me machucar. Desde o começo eu sabia que não seria um BL que eu conseguiria assistir como assisto tantos outros, porque a história do Tanrak e do Barth toca em uma parte muito específica da minha vida, uma parte que envolve a minha fé, a forma como eu cresci dentro da Igreja Católica e, principalmente, a maneira como durante muitos anos eu enxerguei o fato de gostar de mulheres. O que eu não sabia era o quanto isso ainda seria capaz de me atingir.
Eu comecei a assistir sabendo que existia ali uma coisa que eu reconheceria. Tanrak tinha medo de amar alguém porque acreditava que esse amor poderia afastá-lo de Deus, e eu conhecia aquele medo. Desde criança eu sempre gostei de meninas, isso nunca foi exatamente escondido, mas durante muito tempo eu enxerguei isso como alguma coisa que precisava desaparecer. Eu me ajoelhava na missa, rezava, chorava e pedia para Deus tirar aquilo de mim. Quantas vezes eu disse "Pai, eu pequei de novo" eu já nem sei mais. Eu realmente acreditava que estava falhando com Ele todas as vezes que percebia que continuava gostando de mulheres. Eu pedia para ser uma pessoa normal, pedia para conseguir me libertar daquele pecado e, quando nada mudava, comecei a acreditar que talvez Deus não estivesse me ouvindo justamente por minha causa.
Por isso foi impossível assistir ao Tanrak sem me enxergar nele em algum momento. Quando ele percebe que está apaixonado pelo Barth e começa a evitá-lo porque está com medo de que alguém descubra, eu não estava apenas entendendo o personagem. Eu estava lembrando de uma versão minha que também teve medo de existir. Mas foi quando ele entrou naquele confessionário e disse ao padre que tinha pecado, que estava apaixonado por alguém que não podia amar, que eu senti que alguma coisa dentro de mim tinha sido puxada para fora. Principalmente quando ele começou a perguntar se, caso terminasse com Barth, Deus voltaria a amá-lo, se voltaria a ouvi-lo. Porque eu também já tive medo de que Deus não me ouvisse. Eu também já achei que precisava abrir mão de uma parte de mim para continuar sendo digna do amor Dele.
E talvez seja por isso que a frase do Barth tenha me destruído tanto. Quando ele diz a Tanrak que o ama porque Deus o ama, eu não ouvi apenas uma declaração de amor entre dois personagens. Eu pensei em tudo que eu já vivi e em todas as vezes em que eu achei que precisava escolher. Durante a minha adolescência, eu ouvi pessoas dizendo que eu iria para o inferno por gostar de mulheres, que eu era pecadora, que eu era um demônio. Pessoas apontavam o dedo para mim, pegavam meu número e mandavam versículos da Bíblia como se precisassem me convencer de que havia alguma coisa errada em mim. Em determinado momento, até ouvi que precisava descobrir qual trauma havia me feito gostar de meninas e que só poderia ser curada quando aceitasse Jesus. E eu vivi tudo isso enquanto continuava amando Jesus.
Foi justamente isso que Ticket to Heaven me fez lembrar. Não porque hoje eu pense da mesma forma que pensava naquela época, mas porque eu percebi que algumas coisas que eu achava que já não doíam ainda estavam guardadas em algum lugar. Hoje eu me entendo, me aceito e não escondo mais quem eu sou. Eu sou católica, amo Deus, amo Jesus e continuo sendo uma mulher que ama mulheres. Eu não precisei abandonar a minha fé para conseguir aceitar a mim mesma, mas durante muito tempo eu achei que precisaria.
Eu contei para a minha mulher sobre essa frase do Barth porque, de alguma forma, foi impossível não pensar nela. Eu pensei que aquilo era algo que ela diria para mim. Ela não vive a fé da mesma maneira que eu, não gosta de igreja e questiona muitas coisas sobre Deus, enquanto eu sou completamente devota de Cristo. Mas eu não preciso que ela acredite em tudo exatamente como eu acredito para que ela entenda o quanto Deus é importante para mim. E talvez o que eu tenha sentido lendo aquela fala tenha sido justamente isso: a vontade de ser amada sem precisar esconder nenhuma das partes que fazem de mim quem eu sou.
Eu chorei muito nos episódios 5 e 6. Muito mais do que eu esperava. Eu precisei pausar várias vezes, mandar áudio chorando para a minha namorada, para meus amigos, sair do episódio para responder alguma coisa e, mesmo longe da tela, começar a chorar novamente só de lembrar do que tinha acabado de assistir. Em determinado momento, eu já não precisava nem estar vendo a série para ficar mal. Bastava pensar no Tanrak e no Barth para começar a chorar.
E acho que foi aí que eu entendi que eu não estava chorando somente pelo que estava acontecendo com eles. Eu estava chorando por coisas que aconteceram comigo e que, naquela época, eu talvez não tivesse conseguido chorar. Eu precisava continuar vivendo, continuar indo para a igreja, continuar tentando entender o que estava acontecendo comigo, continuar ouvindo as pessoas ao meu redor e tentando descobrir se eu estava errada. Quando finalmente encontrei uma forma de me aceitar, talvez eu tenha seguido em frente sem perceber que algumas daquelas dores continuavam comigo.
Ticket to Heaven encontrou justamente esse lugar.
Por isso eu não consigo dizer que terminei o BL e simplesmente gostei ou não gostei. Eu terminei carregando uma sensação muito difícil de explicar, porque foi como assistir à minha própria história sendo contada por outra pessoa, só que com personagens diferentes e em outro contexto. Eu já sabia que ia me machucar. Só não sabia quanto.
E talvez seja isso que mais ficou comigo depois de terminar. Eu passei anos acreditando que precisava escolher entre amar a Deus e ser quem eu sou. Hoje eu sei que não quero mais viver dessa forma. Continuo amando Jesus, continuo tendo fé, continuo sendo católica e continuo amando mulheres. E depois de tudo que vivi, talvez a coisa mais importante que essa história tenha me lembrado seja que eu não preciso mais olhar para mim mesma como aquela menina que precisava ser "curada" de alguma coisa.
Eu só queria que ela tivesse sabido disso antes.
Eu comecei a assistir sabendo que existia ali uma coisa que eu reconheceria. Tanrak tinha medo de amar alguém porque acreditava que esse amor poderia afastá-lo de Deus, e eu conhecia aquele medo. Desde criança eu sempre gostei de meninas, isso nunca foi exatamente escondido, mas durante muito tempo eu enxerguei isso como alguma coisa que precisava desaparecer. Eu me ajoelhava na missa, rezava, chorava e pedia para Deus tirar aquilo de mim. Quantas vezes eu disse "Pai, eu pequei de novo" eu já nem sei mais. Eu realmente acreditava que estava falhando com Ele todas as vezes que percebia que continuava gostando de mulheres. Eu pedia para ser uma pessoa normal, pedia para conseguir me libertar daquele pecado e, quando nada mudava, comecei a acreditar que talvez Deus não estivesse me ouvindo justamente por minha causa.
Por isso foi impossível assistir ao Tanrak sem me enxergar nele em algum momento. Quando ele percebe que está apaixonado pelo Barth e começa a evitá-lo porque está com medo de que alguém descubra, eu não estava apenas entendendo o personagem. Eu estava lembrando de uma versão minha que também teve medo de existir. Mas foi quando ele entrou naquele confessionário e disse ao padre que tinha pecado, que estava apaixonado por alguém que não podia amar, que eu senti que alguma coisa dentro de mim tinha sido puxada para fora. Principalmente quando ele começou a perguntar se, caso terminasse com Barth, Deus voltaria a amá-lo, se voltaria a ouvi-lo. Porque eu também já tive medo de que Deus não me ouvisse. Eu também já achei que precisava abrir mão de uma parte de mim para continuar sendo digna do amor Dele.
E talvez seja por isso que a frase do Barth tenha me destruído tanto. Quando ele diz a Tanrak que o ama porque Deus o ama, eu não ouvi apenas uma declaração de amor entre dois personagens. Eu pensei em tudo que eu já vivi e em todas as vezes em que eu achei que precisava escolher. Durante a minha adolescência, eu ouvi pessoas dizendo que eu iria para o inferno por gostar de mulheres, que eu era pecadora, que eu era um demônio. Pessoas apontavam o dedo para mim, pegavam meu número e mandavam versículos da Bíblia como se precisassem me convencer de que havia alguma coisa errada em mim. Em determinado momento, até ouvi que precisava descobrir qual trauma havia me feito gostar de meninas e que só poderia ser curada quando aceitasse Jesus. E eu vivi tudo isso enquanto continuava amando Jesus.
Foi justamente isso que Ticket to Heaven me fez lembrar. Não porque hoje eu pense da mesma forma que pensava naquela época, mas porque eu percebi que algumas coisas que eu achava que já não doíam ainda estavam guardadas em algum lugar. Hoje eu me entendo, me aceito e não escondo mais quem eu sou. Eu sou católica, amo Deus, amo Jesus e continuo sendo uma mulher que ama mulheres. Eu não precisei abandonar a minha fé para conseguir aceitar a mim mesma, mas durante muito tempo eu achei que precisaria.
Eu contei para a minha mulher sobre essa frase do Barth porque, de alguma forma, foi impossível não pensar nela. Eu pensei que aquilo era algo que ela diria para mim. Ela não vive a fé da mesma maneira que eu, não gosta de igreja e questiona muitas coisas sobre Deus, enquanto eu sou completamente devota de Cristo. Mas eu não preciso que ela acredite em tudo exatamente como eu acredito para que ela entenda o quanto Deus é importante para mim. E talvez o que eu tenha sentido lendo aquela fala tenha sido justamente isso: a vontade de ser amada sem precisar esconder nenhuma das partes que fazem de mim quem eu sou.
Eu chorei muito nos episódios 5 e 6. Muito mais do que eu esperava. Eu precisei pausar várias vezes, mandar áudio chorando para a minha namorada, para meus amigos, sair do episódio para responder alguma coisa e, mesmo longe da tela, começar a chorar novamente só de lembrar do que tinha acabado de assistir. Em determinado momento, eu já não precisava nem estar vendo a série para ficar mal. Bastava pensar no Tanrak e no Barth para começar a chorar.
E acho que foi aí que eu entendi que eu não estava chorando somente pelo que estava acontecendo com eles. Eu estava chorando por coisas que aconteceram comigo e que, naquela época, eu talvez não tivesse conseguido chorar. Eu precisava continuar vivendo, continuar indo para a igreja, continuar tentando entender o que estava acontecendo comigo, continuar ouvindo as pessoas ao meu redor e tentando descobrir se eu estava errada. Quando finalmente encontrei uma forma de me aceitar, talvez eu tenha seguido em frente sem perceber que algumas daquelas dores continuavam comigo.
Ticket to Heaven encontrou justamente esse lugar.
Por isso eu não consigo dizer que terminei o BL e simplesmente gostei ou não gostei. Eu terminei carregando uma sensação muito difícil de explicar, porque foi como assistir à minha própria história sendo contada por outra pessoa, só que com personagens diferentes e em outro contexto. Eu já sabia que ia me machucar. Só não sabia quanto.
E talvez seja isso que mais ficou comigo depois de terminar. Eu passei anos acreditando que precisava escolher entre amar a Deus e ser quem eu sou. Hoje eu sei que não quero mais viver dessa forma. Continuo amando Jesus, continuo tendo fé, continuo sendo católica e continuo amando mulheres. E depois de tudo que vivi, talvez a coisa mais importante que essa história tenha me lembrado seja que eu não preciso mais olhar para mim mesma como aquela menina que precisava ser "curada" de alguma coisa.
Eu só queria que ela tivesse sabido disso antes.
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