This review may contain spoilers
Esqueça a coerência - o cérebro - e aproveite o show.
Vincenzo é um dorama que aposta deliberadamente na difícil conciliação entre comédia caricata e drama criminal, mas falha em transformar essa proposta em uma experiência narrativa coesa. A obra parece constantemente dividida entre dois registros incompatíveis, optando por alterná-los em vez de integrá-los, o que resulta em um produto estruturalmente frágil, repetitivo e excessivamente alongado.
Desde os episódios iniciais, a narrativa já apresenta um problema central: a lógica interna é sacrificada em favor de situações cômicas forçadas. O protagonista, um mafioso coreano italiano experiente, é colocado diante de conflitos que poderiam ser resolvidos de forma direta e definitiva, mas que são artificialmente prolongados para sustentar o humor pastelão e a duração do Dorama. Essa escolha compromete a credibilidade do personagem e esvazia o peso dramático de suas ações.
Ao longo do desenvolvimento, Vincenzo até entrega momentos isolados que funcionam - tanto no drama quanto na comédia -, porém eles jamais se consolidam como partes orgânicas de um todo. Cada cena parece existir por mérito próprio, sem contribuir de maneira efetiva para a progressão narrativa. O resultado é uma obra que se sustenta por fragmentos, não por um todo.
Os moradores do prédio, inicialmente apresentados como núcleo cômico e elemento simbólico da resistência, têm sua função narrativa esgotada ainda antes da metade do dorama. A partir desse ponto, passam a existir apenas como obstáculos artificiais para prolongar a história, repetindo situações e conflitos já resolvidos. Embora retomem alguma relevância próxima ao desfecho e incrivelmente todos são super humanos, dotados de habilidades, mas isso ocorre a um custo elevado de ritmo e coesão.
O vilão principal causa uma boa impressão inicial graças ao mistério em torno de sua identidade - o ponto mais alto. No entanto, após a revelação, não há qualquer aprofundamento ou mudança de tom. Ele permanece essencialmente o mesmo personagem caricato, sem presença ou aura de ameaça real, sendo apenas um psicopata sem qualquer inteligência funcional ou de fato um vilão que daria trabalho ao protagonista. Os antagonistas secundários seguem o mesmo padrão: estáticos, previsíveis e funcionais apenas por conveniência do roteiro. Sustentar vinte episódios enfrentando os mesmos inimigos, sem escalonamento de ameaça ou complexidade, torna a experiência cansativa e repetitiva. Essa ausência de progressão resulta em desgaste evidente. A narrativa passa a girar em círculos, repetindo estruturas, conflitos e soluções, o que leva à perda de tensão e engajamento - a ponto de certas cenas se tornarem dispensáveis, especialmente aquelas centradas no alívio cômico.
Somente nos três episódios finais o dorama finalmente encontra um tom mais adequado. A comédia praticamente deixa de existir, o clima se torna mais sério e os desfechos dos vilões são conduzidos de forma interessante e satisfatória. Esses momentos demonstram que Vincenzo tinha potencial para ser uma obra mais consistente e impactante. No entanto, essa melhora tardia não é suficiente para compensar o excesso de episódios arrastados e a repetição narrativa que domina a maior parte da série, fora o fato de optar pelo ilógico ala Looney Tunes.
No saldo final, Vincenzo funciona melhor como entretenimento escapista do que como narrativa bem estruturada. Seus acertos existem, mas são pontuais; seus problemas, por outro lado, são sistêmicos. A sensação predominante não é a de uma jornada bem construída, mas a de uma obra que poderia ter sido significativamente mais curta, mais concisa e mais eficaz se tivesse confiado menos na caricatura e mais na progressão dramática.
Como citei em certo comentário, para quem procura diversão, fuga da realidade, falta de lógica e coerência narrativa, é um prato cheio; não é à toa que é bem avaliado. Mas, para quem não acha que coerência e lógica só precisam estar em documentários ou livros de história, e sim também na literatura e na ficção em geral, certamente será uma decepção, pois trata-se de um público mais seleto, que não aceita qualquer coisa em prol do que a maioria aceita.
Ps: sofri pra terminar esse dorama.
Ps2: o chefe da máfia italiana é infinitamente mais boa pinta e estiloso que o Vincenzo, que a série ficou forçando elogios pelos personagens do prédio.
Ps3: As cenas Slow motion aqui se superaram, qualquer momento eles jogam uma, adiantei quase todas, negócio irritante.
Desde os episódios iniciais, a narrativa já apresenta um problema central: a lógica interna é sacrificada em favor de situações cômicas forçadas. O protagonista, um mafioso coreano italiano experiente, é colocado diante de conflitos que poderiam ser resolvidos de forma direta e definitiva, mas que são artificialmente prolongados para sustentar o humor pastelão e a duração do Dorama. Essa escolha compromete a credibilidade do personagem e esvazia o peso dramático de suas ações.
Ao longo do desenvolvimento, Vincenzo até entrega momentos isolados que funcionam - tanto no drama quanto na comédia -, porém eles jamais se consolidam como partes orgânicas de um todo. Cada cena parece existir por mérito próprio, sem contribuir de maneira efetiva para a progressão narrativa. O resultado é uma obra que se sustenta por fragmentos, não por um todo.
Os moradores do prédio, inicialmente apresentados como núcleo cômico e elemento simbólico da resistência, têm sua função narrativa esgotada ainda antes da metade do dorama. A partir desse ponto, passam a existir apenas como obstáculos artificiais para prolongar a história, repetindo situações e conflitos já resolvidos. Embora retomem alguma relevância próxima ao desfecho e incrivelmente todos são super humanos, dotados de habilidades, mas isso ocorre a um custo elevado de ritmo e coesão.
O vilão principal causa uma boa impressão inicial graças ao mistério em torno de sua identidade - o ponto mais alto. No entanto, após a revelação, não há qualquer aprofundamento ou mudança de tom. Ele permanece essencialmente o mesmo personagem caricato, sem presença ou aura de ameaça real, sendo apenas um psicopata sem qualquer inteligência funcional ou de fato um vilão que daria trabalho ao protagonista. Os antagonistas secundários seguem o mesmo padrão: estáticos, previsíveis e funcionais apenas por conveniência do roteiro. Sustentar vinte episódios enfrentando os mesmos inimigos, sem escalonamento de ameaça ou complexidade, torna a experiência cansativa e repetitiva. Essa ausência de progressão resulta em desgaste evidente. A narrativa passa a girar em círculos, repetindo estruturas, conflitos e soluções, o que leva à perda de tensão e engajamento - a ponto de certas cenas se tornarem dispensáveis, especialmente aquelas centradas no alívio cômico.
Somente nos três episódios finais o dorama finalmente encontra um tom mais adequado. A comédia praticamente deixa de existir, o clima se torna mais sério e os desfechos dos vilões são conduzidos de forma interessante e satisfatória. Esses momentos demonstram que Vincenzo tinha potencial para ser uma obra mais consistente e impactante. No entanto, essa melhora tardia não é suficiente para compensar o excesso de episódios arrastados e a repetição narrativa que domina a maior parte da série, fora o fato de optar pelo ilógico ala Looney Tunes.
No saldo final, Vincenzo funciona melhor como entretenimento escapista do que como narrativa bem estruturada. Seus acertos existem, mas são pontuais; seus problemas, por outro lado, são sistêmicos. A sensação predominante não é a de uma jornada bem construída, mas a de uma obra que poderia ter sido significativamente mais curta, mais concisa e mais eficaz se tivesse confiado menos na caricatura e mais na progressão dramática.
Como citei em certo comentário, para quem procura diversão, fuga da realidade, falta de lógica e coerência narrativa, é um prato cheio; não é à toa que é bem avaliado. Mas, para quem não acha que coerência e lógica só precisam estar em documentários ou livros de história, e sim também na literatura e na ficção em geral, certamente será uma decepção, pois trata-se de um público mais seleto, que não aceita qualquer coisa em prol do que a maioria aceita.
Ps: sofri pra terminar esse dorama.
Ps2: o chefe da máfia italiana é infinitamente mais boa pinta e estiloso que o Vincenzo, que a série ficou forçando elogios pelos personagens do prédio.
Ps3: As cenas Slow motion aqui se superaram, qualquer momento eles jogam uma, adiantei quase todas, negócio irritante.
Was this review helpful to you?


