This review may contain spoilers
"Na Grécia antiga, especialmente em Parmênides e depois em Platão, a verdade (alétheia) não é algo que se “produz”, mas algo que se desvela. O verbo grego carrega a ideia de retirar o véu: a realidade, em sua essência, já é verdadeira, e o papel do filósofo é afastar as aparências (dóxa) que obscurecem esse núcleo estável do ser.
No Mito da Caverna, Platão formula de modo quase narrativo essa cisão: a verdade é aquilo que permanece idêntico a si mesmo, fora do jogo das sombras, e o erro não é uma mentira deliberada, mas uma condição existencial de quem vive aprisionado à superfície do sensível. Aristóteles, embora mais empírico, preserva esse horizonte ontológico: a verdade é a adequação entre o intelecto e o ser. Ainda há, portanto, um mundo que precede o sujeito, e o juízo verdadeiro é aquele que consegue se conformar com essa ordem objetiva. A ideia - o eidos - não nasce como invenção subjetiva, mas como forma inteligível que estrutura a realidade e que a razão pode captar.
Quando avançamos para a modernidade, essa arquitetura se inverte. Em Descartes, a verdade já não começa no ser, mas no sujeito: cogito, ergo sum. O fundamento desloca-se do mundo para a consciência. Em Kant, esse deslocamento se radicaliza: não conhecemos as “coisas em si”, mas apenas os fenômenos tal como aparecem sob as formas e categorias do entendimento. A verdade deixa de ser desvelamento do real e passa a ser, em larga medida, coerência dentro de um sistema de representação.
No modernismo e nos desdobramentos contemporâneos ela se torna ainda mais instável e obscura: não apenas mediada, mas atravessada por linguagem, vontade, discurso e relações de poder.
É nesse ponto que Pinocchio se torna surpreendentemente “grego” e, ao mesmo tempo, profundamente moderno. A chamada “síndrome de Pinocchio” funciona como uma alegoria da alétheia: o corpo da protagonista reage à mentira como se a verdade fosse uma força ontológica que não pode ser suprimida sem consequências físicas. A verdade, aqui, não é apenas um acordo social ou uma convenção discursiva - ela se impõe, quase como uma lei do ser. Nesse sentido, o dorama ecoa Platão: mentir não é apenas um erro moral, mas uma ruptura com uma ordem mais profunda que exige reparação.
No entanto, a ambientação no jornalismo e na mídia reinscreve tudo no horizonte moderno. A verdade não aparece como algo simplesmente dado, mas como algo disputado, editado, recortado e narrado. Reportagens moldam reputações, imagens públicas substituem pessoas reais, e fatos se tornam “realidade” apenas quando passam pelo filtro institucional. Aqui, o dorama se afasta da ontologia grega e se aproxima de uma visão completamente moderna: a verdade é inseparável dos regimes que a produzem e a legitimam.
O paralelo, portanto, se sustenta justamente na tensão. Pinocchio encena, em termos dramáticos, o conflito entre duas concepções históricas de verdade. De um lado, uma verdade que “faz adoecer” quando é negada - quase metafísica, necessária, inescapável. De outro, uma verdade que circula como produto social, vulnerável à manipulação, à audiência e aos interesses. A protagonista vive entre esses dois mundos: seu corpo pertence ao regime da alétheia grega, mas sua profissão a lança no regime moderno da narrativa e da mediação."
Pinocchio (2014), foi um dorama que eu estava postergando durante anos e que acabou se tornando uma grata surpresa, principalmente pelos seus temas - que me lembraram e fizeram ficar reflexivo sobre como a modernidade rompeu com os gregos e medievais em relação aos temas tratados pelo dorama - sobre verdade, mentira e responsabilidade, usando o jornalismo como pano de fundo para discutir como as histórias são contadas e como elas afetam a vida das pessoas. A “síndrome de Pinocchio” da protagonista é uma ideia criativa que dá leveza e, ao mesmo tempo, profundidade ao debate moral do dorama.
Choi Dal-po/Ha Myung é um protagonista movido pelo passado e pela busca por justiça. Sua jornada funciona bem porque mostra o conflito entre querer revelar a verdade e lidar com as consequências que ela traz. Choi In-ha é carismática e sincera, e sua condição de não conseguir mentir a torna o contraponto emocional e ético da narrativa. O romance entre os dois é envolvente e ajuda a manter o ritmo da história, mesmo nos momentos mais dramáticos.
Os personagens secundários cumprem bem seus papéis dentro da redação, representando diferentes formas de lidar com a notícia: alguns mais idealistas, outros mais pragmáticos. Embora nem todos sejam muito aprofundados, eles ajudam a dar contexto ao conflito central. No geral, Pinocchio é uma obra envolvente, subtramas bem interessantes, bons personagens, romance cativante (poderia ter mais momentos e um final melhor entre os personagens) e uma proposta muito rica sobre o valor da verdade no mundo moderno. Mesmo com seus excessos, é fácil de maratonar e deixa uma reflexão que vai além do drama.
Envelheceu como vinho.
No Mito da Caverna, Platão formula de modo quase narrativo essa cisão: a verdade é aquilo que permanece idêntico a si mesmo, fora do jogo das sombras, e o erro não é uma mentira deliberada, mas uma condição existencial de quem vive aprisionado à superfície do sensível. Aristóteles, embora mais empírico, preserva esse horizonte ontológico: a verdade é a adequação entre o intelecto e o ser. Ainda há, portanto, um mundo que precede o sujeito, e o juízo verdadeiro é aquele que consegue se conformar com essa ordem objetiva. A ideia - o eidos - não nasce como invenção subjetiva, mas como forma inteligível que estrutura a realidade e que a razão pode captar.
Quando avançamos para a modernidade, essa arquitetura se inverte. Em Descartes, a verdade já não começa no ser, mas no sujeito: cogito, ergo sum. O fundamento desloca-se do mundo para a consciência. Em Kant, esse deslocamento se radicaliza: não conhecemos as “coisas em si”, mas apenas os fenômenos tal como aparecem sob as formas e categorias do entendimento. A verdade deixa de ser desvelamento do real e passa a ser, em larga medida, coerência dentro de um sistema de representação.
No modernismo e nos desdobramentos contemporâneos ela se torna ainda mais instável e obscura: não apenas mediada, mas atravessada por linguagem, vontade, discurso e relações de poder.
É nesse ponto que Pinocchio se torna surpreendentemente “grego” e, ao mesmo tempo, profundamente moderno. A chamada “síndrome de Pinocchio” funciona como uma alegoria da alétheia: o corpo da protagonista reage à mentira como se a verdade fosse uma força ontológica que não pode ser suprimida sem consequências físicas. A verdade, aqui, não é apenas um acordo social ou uma convenção discursiva - ela se impõe, quase como uma lei do ser. Nesse sentido, o dorama ecoa Platão: mentir não é apenas um erro moral, mas uma ruptura com uma ordem mais profunda que exige reparação.
No entanto, a ambientação no jornalismo e na mídia reinscreve tudo no horizonte moderno. A verdade não aparece como algo simplesmente dado, mas como algo disputado, editado, recortado e narrado. Reportagens moldam reputações, imagens públicas substituem pessoas reais, e fatos se tornam “realidade” apenas quando passam pelo filtro institucional. Aqui, o dorama se afasta da ontologia grega e se aproxima de uma visão completamente moderna: a verdade é inseparável dos regimes que a produzem e a legitimam.
O paralelo, portanto, se sustenta justamente na tensão. Pinocchio encena, em termos dramáticos, o conflito entre duas concepções históricas de verdade. De um lado, uma verdade que “faz adoecer” quando é negada - quase metafísica, necessária, inescapável. De outro, uma verdade que circula como produto social, vulnerável à manipulação, à audiência e aos interesses. A protagonista vive entre esses dois mundos: seu corpo pertence ao regime da alétheia grega, mas sua profissão a lança no regime moderno da narrativa e da mediação."
Pinocchio (2014), foi um dorama que eu estava postergando durante anos e que acabou se tornando uma grata surpresa, principalmente pelos seus temas - que me lembraram e fizeram ficar reflexivo sobre como a modernidade rompeu com os gregos e medievais em relação aos temas tratados pelo dorama - sobre verdade, mentira e responsabilidade, usando o jornalismo como pano de fundo para discutir como as histórias são contadas e como elas afetam a vida das pessoas. A “síndrome de Pinocchio” da protagonista é uma ideia criativa que dá leveza e, ao mesmo tempo, profundidade ao debate moral do dorama.
Choi Dal-po/Ha Myung é um protagonista movido pelo passado e pela busca por justiça. Sua jornada funciona bem porque mostra o conflito entre querer revelar a verdade e lidar com as consequências que ela traz. Choi In-ha é carismática e sincera, e sua condição de não conseguir mentir a torna o contraponto emocional e ético da narrativa. O romance entre os dois é envolvente e ajuda a manter o ritmo da história, mesmo nos momentos mais dramáticos.
Os personagens secundários cumprem bem seus papéis dentro da redação, representando diferentes formas de lidar com a notícia: alguns mais idealistas, outros mais pragmáticos. Embora nem todos sejam muito aprofundados, eles ajudam a dar contexto ao conflito central. No geral, Pinocchio é uma obra envolvente, subtramas bem interessantes, bons personagens, romance cativante (poderia ter mais momentos e um final melhor entre os personagens) e uma proposta muito rica sobre o valor da verdade no mundo moderno. Mesmo com seus excessos, é fácil de maratonar e deixa uma reflexão que vai além do drama.
Envelheceu como vinho.
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