This review may contain spoilers
DIFERENTE E IMPACTANTE!
Primeiramente, vou resumir o plot da história pra quem ficou confuso. E não, eu também não entendi de primeira. Tive que ver algumas explicações depois, o que de forma alguma diminui o valor narrativo da obra, pelo contrário: só reforçou meu interesse em realmente entender o que estava sendo contado.
4 Minutes basicamente constrói sua narrativa a partir da ideia de consciência, culpa e trauma, mostrando um cérebro que, nos seus últimos instantes, tenta desesperadamente “consertar” o que deu errado. O título vem do conceito médico de que, após a parada do coração, o cérebro ainda pode manter alguma atividade por cerca de quatro minutos, e é exatamente nesse intervalo que a história se desenrola.
A série apresenta duas "realidades".
Na primeira, eu acreditava que a trama girava em torno apenas de viagem no tempo.
Na segunda, já estava convencida de que tinha entrado num multiverso da loucura, e, sinceramente, eu também estava ficando meio louca, pois de fato parecia que seriam realidades alternativas. Mas aí está o pulo do gato.
Na primeira "realidade", que ocupa aproximadamente os cinco primeiros episódios, acompanhamos uma versão em que Great parece ter a chance de refazer escolhas. Onde somos levados a acreditar que a trama é sobre viagem no tempo. Onde os acontecimentos se organizam de forma quase ideal: conflitos são evitados, decisões erradas podem ser corrigidas e o relacionamento com Tyme nasce de maneira saudável, com um timing quase perfeito, como se tudo estivesse exatamente onde deveria estar.
Já a segunda "realidade", a partir do episódio 6, revela o que é a linha verdadeira dos acontecimentos. E aí tudo desanda. Onde tudo é uma desgraça e onde geral se ferra. Onde o relacionamento entre Great e Tyme surge de um jeito que não é o melhor pra desenvolver uma relação com alguém, é marcado por manipulação e pelo fato de Tyme se aproximar do Great movido puramente por vingança.
A primeira realidade não representa viagem no tempo, mas sim o embate final da mente de Great enquanto ele está morrendo, entre o que ele provavelmente se arrepende de ter feito e mudaria se pudesse, e o que realmente aconteceu.
Então, do episódio 1 ao episódio 5 tudo é falso. Great nunca teve a chance de mudar nada, e tudo o que ocorreu do episódio 6 em diante é verdadeiro.
Agora, algo que realmente me confundiu foi em relação à morte do personagem Dome, irmão do Tonkla. Pois na "primeira realidade" ele é dado como morto pela polícia e o Tonkla faz até um funeral e tudo. Mas como isso, se o Great levou ele para o hospital?
Eu tive que pesquisar isso e a resposta mais compreensível que encontrei foi essa:
"Na primeira realidade, a morte de Dome é tratada como fato consumado: há declaração oficial de óbito, funeral e luto. Esses elementos não são erros narrativos, mas parte do processo mental de Great, que primeiro reconhece a perda como real antes de tentar alterá-la. A posterior “sobrevivência” do irmão na mesma realidade não apaga a morte, funcionando como uma tentativa tardia de reparação, em que a mente ensaia um desfecho diferente para uma injustiça que já aconteceu."
Acho que dá pra entender… mais ou menos. Porque eu fiquei MUITO confusa com quem realmente tinha morrido naquele momento, já que Dome foi levado para o hospital e o "amigo" do Great apareceu pra bater nele depois. Fiquei genuinamente tipo: ué? Quem é o irmão do Tonkla então??? E ele sair do hospital e aparecer na casa do Tonkla só piorou minha confusão.
Basicamente, a confusão em torno de Dome não é um erro de continuidade, mas um sintoma da própria narrativa: quando a mente tenta consertar algo irreparável, ela entra em contradição.
Assim como em jogos narrativos como Until Dawn e Life is Strange, 4 Minutes constrói sua história a partir da ilusão de escolha. Cada decisão parece capaz de alterar o destino, mas, na prática, as “correções” só surgem depois que um erro moral já foi cometido. O que muda não é o passado, mas a consciência de quem escolheu mal.
A presença da outra paciente que também vivencia os “4 minutos” inicialmente sugere uma ligação direta com Great, quase como se ambos compartilhassem um destino ou um passado em comum. No entanto, essa expectativa nunca se concretiza. E aí fica claro que essa personagem não existe para explicar nada, mas para funcionar como um espelhamento narrativo. Ela reforça que o fenômeno não é exclusivo de Great, nem um privilégio ou dom especial. Assim como ele, ela está presa nesse intervalo final de consciência, tentando reorganizar memórias, culpas e desejos antes do fim. Quando a narrativa não cria uma conexão direta entre os dois, a história deixa claro que o foco não é o sobrenatural, mas o psicológico.
Acho que a série trabalha constantemente com zonas cinzentas, onde escolhas são feitas não necessariamente por maldade explícita, mas por medo, hesitação e autopreservação. E é justamente dessas falhas humanas que nascem os conflitos centrais da obra.
Great é o exemplo mais evidente dessa lógica. Apesar de ter um caráter extremamente duvidoso. Todas as vezes em que a narrativa “retorna” na "primeira realidade", o gatilho é sempre o mesmo: uma falha moral. Ele foge após atropelar uma mulher, hesita em ajudar a amiga de Tyme e falha novamente diante da situação envolvendo Dome. Não são atos de crueldade deliberada, mas escolhas impulsionadas pelo instinto de sobrevivência e pela incapacidade de agir corretamente no momento decisivo. É essa culpa acumulada que empurra sua mente a tentar reorganizar tudo, criando a ilusão de que ainda seria possível consertar o que já estava quebrado.
Tyme, por sua vez, também está longe de ser uma figura moralmente limpa. Na linha original dos acontecimentos, sua aproximação de Great é movida por vingança, e não por afeto. Mesmo partindo de uma dor legítima, suas ações frequentemente cruzam limites éticos, como ao expor momentos íntimos de Great ao pai, sem saber se ele tinha plena consciência das questões que envolviam sua família. Ainda mais quando descobrimos que os pais de Great não tiveram participação direta na morte dos pais de Tyme. Isso não os transforma em santos, já que escolheram trabalhar numa indústria podre e exploratória, mas muda completamente o peso da vingança.
O triângulo entre Tonkla, Korn (irmão de Great) e o policial foi um núcleo inesperadamente interessante, mesmo eu não entendendo muito bem como ele se conectava ao arco principal.
O policial vai carregar a culpa de ter matado alguém que amava e terá de conviver com essa escolha.
O Tonkla mostrou uma dependência emocional intensa e egoísta: sua necessidade de se apoiar em quem estivesse presente, independentemente de como isso afetaria os outros, se mistura a um lado violento e psicopata. Ele matou o próprio pai e atirou no Great com intenção de matar. Pode até soar como justiça diante do monstro que o pai foi, mas isso não deixa de ser moralmente errado. Eliminar alguém ruim não torna o ato correto, apenas compreensível dentro da dor dele.
O Korn também foi uma incógnita. Ele se envolvia com coisas erradas, mas talvez não fosse de todo ruim. Digo isso, pois não dá pra saber se ele estava diretamente relacionado à morte das pessoas envolvidas no esquema ilegal. E porque ele disse para o capanga cuidar da espiã (amiga do Tyme), e não pra matá-la. E, como irmão, ele nunca demonstrou intenção de machucar o Great. Ele não estava presente quando Tonkla precisou, mas demonstrava um afeto genuíno e nunca mostrou uma intenção clara de abandono, mesmo após descobrir a traição. A série não responde o que teria acontecido se ambos tivessem sobrevivido, e isso acabou soando quase filosófico.
Eu já conhecia o Bible de KinnPorsche, mas essa foi minha primeira vez assistindo o Jes, e não esperava muito do shipp. Ainda assim, os dois entregaram uma química ótima.
E o que dizer das NC? 👀 Posso dizer que realmente são +18, bem mais cruas do que eu esperava, com muita nudez posterior. Me lembrou KinnPorsche, mas aqui me deixou ainda mais chocada.
Vi que muita gente não gostou do final, mas, particularmente, achei coerente com tudo o que a série construiu. Também teria gostado de ver mais sobre como Great e Tyme se recuperaram de ferimentos que quase os levaram à morte em tão pouco tempo. Sobre o Great tentar se acertar na vida, não acho que ele precisasse necessariamente se entregar à polícia, mas é evidente que aquilo o corroía. Se não podia mudar o passado, ao menos podia encarar as consequências da forma certa. Para mim, o desfecho é agridoce, mesmo com aquele sustinho final.
Sinceramente, não entendo como 4 Minutes não agradou parte do público. Foi uma história que, em poucos episódios, conseguiu me deixar completamente vidrada. Alugou um triplex na minha cabeça, me fez repensar diálogos e reorganizar tudo o tempo todo. É um BL diferente, que não entrega respostas fáceis e realmente obriga o espectador a botar a cabeça pra trabalhar. Pode não ser confortável, nem simples, mas é justamente isso que torna 4 Minutes tão marcante pra mim.
GOSTEI MUITO!!
4 Minutes basicamente constrói sua narrativa a partir da ideia de consciência, culpa e trauma, mostrando um cérebro que, nos seus últimos instantes, tenta desesperadamente “consertar” o que deu errado. O título vem do conceito médico de que, após a parada do coração, o cérebro ainda pode manter alguma atividade por cerca de quatro minutos, e é exatamente nesse intervalo que a história se desenrola.
A série apresenta duas "realidades".
Na primeira, eu acreditava que a trama girava em torno apenas de viagem no tempo.
Na segunda, já estava convencida de que tinha entrado num multiverso da loucura, e, sinceramente, eu também estava ficando meio louca, pois de fato parecia que seriam realidades alternativas. Mas aí está o pulo do gato.
Na primeira "realidade", que ocupa aproximadamente os cinco primeiros episódios, acompanhamos uma versão em que Great parece ter a chance de refazer escolhas. Onde somos levados a acreditar que a trama é sobre viagem no tempo. Onde os acontecimentos se organizam de forma quase ideal: conflitos são evitados, decisões erradas podem ser corrigidas e o relacionamento com Tyme nasce de maneira saudável, com um timing quase perfeito, como se tudo estivesse exatamente onde deveria estar.
Já a segunda "realidade", a partir do episódio 6, revela o que é a linha verdadeira dos acontecimentos. E aí tudo desanda. Onde tudo é uma desgraça e onde geral se ferra. Onde o relacionamento entre Great e Tyme surge de um jeito que não é o melhor pra desenvolver uma relação com alguém, é marcado por manipulação e pelo fato de Tyme se aproximar do Great movido puramente por vingança.
A primeira realidade não representa viagem no tempo, mas sim o embate final da mente de Great enquanto ele está morrendo, entre o que ele provavelmente se arrepende de ter feito e mudaria se pudesse, e o que realmente aconteceu.
Então, do episódio 1 ao episódio 5 tudo é falso. Great nunca teve a chance de mudar nada, e tudo o que ocorreu do episódio 6 em diante é verdadeiro.
Agora, algo que realmente me confundiu foi em relação à morte do personagem Dome, irmão do Tonkla. Pois na "primeira realidade" ele é dado como morto pela polícia e o Tonkla faz até um funeral e tudo. Mas como isso, se o Great levou ele para o hospital?
Eu tive que pesquisar isso e a resposta mais compreensível que encontrei foi essa:
"Na primeira realidade, a morte de Dome é tratada como fato consumado: há declaração oficial de óbito, funeral e luto. Esses elementos não são erros narrativos, mas parte do processo mental de Great, que primeiro reconhece a perda como real antes de tentar alterá-la. A posterior “sobrevivência” do irmão na mesma realidade não apaga a morte, funcionando como uma tentativa tardia de reparação, em que a mente ensaia um desfecho diferente para uma injustiça que já aconteceu."
Acho que dá pra entender… mais ou menos. Porque eu fiquei MUITO confusa com quem realmente tinha morrido naquele momento, já que Dome foi levado para o hospital e o "amigo" do Great apareceu pra bater nele depois. Fiquei genuinamente tipo: ué? Quem é o irmão do Tonkla então??? E ele sair do hospital e aparecer na casa do Tonkla só piorou minha confusão.
Basicamente, a confusão em torno de Dome não é um erro de continuidade, mas um sintoma da própria narrativa: quando a mente tenta consertar algo irreparável, ela entra em contradição.
Assim como em jogos narrativos como Until Dawn e Life is Strange, 4 Minutes constrói sua história a partir da ilusão de escolha. Cada decisão parece capaz de alterar o destino, mas, na prática, as “correções” só surgem depois que um erro moral já foi cometido. O que muda não é o passado, mas a consciência de quem escolheu mal.
A presença da outra paciente que também vivencia os “4 minutos” inicialmente sugere uma ligação direta com Great, quase como se ambos compartilhassem um destino ou um passado em comum. No entanto, essa expectativa nunca se concretiza. E aí fica claro que essa personagem não existe para explicar nada, mas para funcionar como um espelhamento narrativo. Ela reforça que o fenômeno não é exclusivo de Great, nem um privilégio ou dom especial. Assim como ele, ela está presa nesse intervalo final de consciência, tentando reorganizar memórias, culpas e desejos antes do fim. Quando a narrativa não cria uma conexão direta entre os dois, a história deixa claro que o foco não é o sobrenatural, mas o psicológico.
Acho que a série trabalha constantemente com zonas cinzentas, onde escolhas são feitas não necessariamente por maldade explícita, mas por medo, hesitação e autopreservação. E é justamente dessas falhas humanas que nascem os conflitos centrais da obra.
Great é o exemplo mais evidente dessa lógica. Apesar de ter um caráter extremamente duvidoso. Todas as vezes em que a narrativa “retorna” na "primeira realidade", o gatilho é sempre o mesmo: uma falha moral. Ele foge após atropelar uma mulher, hesita em ajudar a amiga de Tyme e falha novamente diante da situação envolvendo Dome. Não são atos de crueldade deliberada, mas escolhas impulsionadas pelo instinto de sobrevivência e pela incapacidade de agir corretamente no momento decisivo. É essa culpa acumulada que empurra sua mente a tentar reorganizar tudo, criando a ilusão de que ainda seria possível consertar o que já estava quebrado.
Tyme, por sua vez, também está longe de ser uma figura moralmente limpa. Na linha original dos acontecimentos, sua aproximação de Great é movida por vingança, e não por afeto. Mesmo partindo de uma dor legítima, suas ações frequentemente cruzam limites éticos, como ao expor momentos íntimos de Great ao pai, sem saber se ele tinha plena consciência das questões que envolviam sua família. Ainda mais quando descobrimos que os pais de Great não tiveram participação direta na morte dos pais de Tyme. Isso não os transforma em santos, já que escolheram trabalhar numa indústria podre e exploratória, mas muda completamente o peso da vingança.
O triângulo entre Tonkla, Korn (irmão de Great) e o policial foi um núcleo inesperadamente interessante, mesmo eu não entendendo muito bem como ele se conectava ao arco principal.
O policial vai carregar a culpa de ter matado alguém que amava e terá de conviver com essa escolha.
O Tonkla mostrou uma dependência emocional intensa e egoísta: sua necessidade de se apoiar em quem estivesse presente, independentemente de como isso afetaria os outros, se mistura a um lado violento e psicopata. Ele matou o próprio pai e atirou no Great com intenção de matar. Pode até soar como justiça diante do monstro que o pai foi, mas isso não deixa de ser moralmente errado. Eliminar alguém ruim não torna o ato correto, apenas compreensível dentro da dor dele.
O Korn também foi uma incógnita. Ele se envolvia com coisas erradas, mas talvez não fosse de todo ruim. Digo isso, pois não dá pra saber se ele estava diretamente relacionado à morte das pessoas envolvidas no esquema ilegal. E porque ele disse para o capanga cuidar da espiã (amiga do Tyme), e não pra matá-la. E, como irmão, ele nunca demonstrou intenção de machucar o Great. Ele não estava presente quando Tonkla precisou, mas demonstrava um afeto genuíno e nunca mostrou uma intenção clara de abandono, mesmo após descobrir a traição. A série não responde o que teria acontecido se ambos tivessem sobrevivido, e isso acabou soando quase filosófico.
Eu já conhecia o Bible de KinnPorsche, mas essa foi minha primeira vez assistindo o Jes, e não esperava muito do shipp. Ainda assim, os dois entregaram uma química ótima.
E o que dizer das NC? 👀 Posso dizer que realmente são +18, bem mais cruas do que eu esperava, com muita nudez posterior. Me lembrou KinnPorsche, mas aqui me deixou ainda mais chocada.
Vi que muita gente não gostou do final, mas, particularmente, achei coerente com tudo o que a série construiu. Também teria gostado de ver mais sobre como Great e Tyme se recuperaram de ferimentos que quase os levaram à morte em tão pouco tempo. Sobre o Great tentar se acertar na vida, não acho que ele precisasse necessariamente se entregar à polícia, mas é evidente que aquilo o corroía. Se não podia mudar o passado, ao menos podia encarar as consequências da forma certa. Para mim, o desfecho é agridoce, mesmo com aquele sustinho final.
Sinceramente, não entendo como 4 Minutes não agradou parte do público. Foi uma história que, em poucos episódios, conseguiu me deixar completamente vidrada. Alugou um triplex na minha cabeça, me fez repensar diálogos e reorganizar tudo o tempo todo. É um BL diferente, que não entrega respostas fáceis e realmente obriga o espectador a botar a cabeça pra trabalhar. Pode não ser confortável, nem simples, mas é justamente isso que torna 4 Minutes tão marcante pra mim.
GOSTEI MUITO!!
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