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My First Client korean drama review
Completed
My First Client
0 people found this review helpful
by pedrinhoomota_
Nov 4, 2025
Completed
Overall 10
Story 10.0
Acting/Cast 10.0
Music 9.5
Rewatch Value 10.0

“My First Client”: Um grito sufocado contra a indiferença

“My First Client” é um daqueles filmes que não apenas tocam, mas dilaceram o espectador por dentro. Baseado em fatos reais, o longa sul-coreano dirigido por Jang Gyu-sung se transforma em uma dolorosa denúncia social — uma ferida aberta que expõe o desamparo das crianças vítimas de violência doméstica e a negligência de uma sociedade que prefere fechar os olhos. É impossível sair ileso. A história de Da Bin e de seu irmão não é apenas ficção: é o retrato cru de uma realidade que ainda persiste, em que o silêncio dos vizinhos e a brandura das leis colaboram com o ciclo do abuso.

O roteiro acompanha o advogado Jung Yup (interpretado magistralmente por Lee Dong-Hwi), um homem inicialmente desleixado, sem grandes pretensões éticas, que acaba se envolvendo em um caso que mudará para sempre sua visão de mundo. O contraste entre sua apatia inicial e o despertar moral diante do sofrimento de Da Bin é o coração do filme. A narrativa, longe de ser maniqueísta, mostra o quanto a indiferença pode ser tão criminosa quanto o próprio ato de violência. Jung Yup não é o herói idealizado dos dramas jurídicos — ele é falho, relutante, humano. E talvez por isso sua jornada seja tão impactante: ela espelha o que muitos espectadores sentem diante da injustiça — o medo de agir, a dúvida, a consciência tardia.

Mas é em Da Bin, a menina que carrega o trauma e a pureza perdida, que o filme encontra sua alma. A jovem atriz entrega uma performance devastadora, capaz de transmitir desespero e inocência com uma naturalidade assustadora. Suas lágrimas parecem reais, e talvez sejam — tamanha a intensidade das cenas de abuso e negligência que o roteiro não poupa do público. Já Yoo Sun, no papel da madrasta, entrega uma atuação igualmente poderosa — e terrivelmente perturbadora. Saber que muitas atrizes recusaram o papel por seu peso moral apenas reforça a coragem e o propósito da atriz, que aceitou o desafio para provocar reflexão. O ódio que ela desperta é o espelho da monstruosidade real que o filme denuncia.

A trilha sonora e a direção de fotografia se unem de forma quase simbiótica. Os acordes tristes e as cordas melancólicas acompanham a dor da protagonista como uma sombra constante, reforçando a atmosfera sombria e realista do longa. Há uma tensão contida em cada cena doméstica, uma angústia silenciosa que o espectador sente antes mesmo de algo acontecer. O filme evita o sensacionalismo e aposta em uma estética crua, sem artifícios, o que torna o impacto emocional ainda mais brutal. É impossível não chorar — e não sentir raiva.

Do ponto de vista social, “My First Client” é um manifesto. Ele escancara a falha das instituições jurídicas e o descaso coletivo diante do sofrimento infantil. O filme denuncia a absurda brandura das punições impostas a abusadores, como se uma advertência ou multa fosse capaz de reparar uma infância destruída. O espectador é forçado a encarar uma pergunta que ecoa até depois dos créditos: se o Estado, a polícia e os vizinhos não protegem, quem o fará? A frase “não é da minha conta” ressoa como um epitáfio moral — uma sentença que legitima a violência e perpetua o abandono.

A força de “My First Client” está também em seus contrastes. O filme equilibra, de forma sutil, momentos de leveza e humor entre Jung Yup e as crianças, que impedem a narrativa de se afundar totalmente na escuridão. Essas breves fagulhas de humanidade são fundamentais: lembram ao público que, mesmo em meio à dor, ainda há espaço para bondade e empatia. A relação entre Jung Yup e Jang Ho — o menino que ajuda Da Bin — é um respiro de ternura em meio ao caos. Eles simbolizam o que o mundo precisa ser: adultos e crianças unidos contra a crueldade, não cúmplices do silêncio.

Por fim, a cinematografia é impecável. A câmera não busca o espetáculo, mas a verdade. Cada enquadramento carrega uma intenção emocional: os close-ups em Da Bin revelam não apenas o medo, mas a impotência de uma criança que perdeu a fé nos adultos. O filme termina deixando perguntas abertas — o destino de Da Bin, a inércia da justiça, a repetição desse ciclo —, e talvez essa seja sua maior força. “My First Client” não quer oferecer consolo, mas incômodo. Ele é um lembrete doloroso de que o mal não se perpetua apenas pelos que o praticam, mas também pelos que se calam. Uma obra necessária, triste e profundamente humana — daquelas que permanecem na mente e no coração muito depois da última cena.
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