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Past Lives korean drama review
Completed
Past Lives
0 people found this review helpful
by pedrinhoomota_
Nov 16, 2025
Completed
Overall 10
Story 10.0
Acting/Cast 10.0
Music 9.0
Rewatch Value 10.0
This review may contain spoilers
Past Lives (2023) é um daqueles filmes que não apenas contam uma história — eles se sentam ao seu lado, seguram sua mão e, em silêncio, despertam memórias que você nem sabia que ainda estavam guardadas. Dirigido por Celine Song, o filme acompanha Nora e Hae Sung, duas crianças coreanas inseparáveis que se perdem quando a família de Nora decide imigrar para o Canadá. Esse rompimento abrupto, aos 12 anos, cria um vazio que atravessa décadas. Song filma esse espaço com uma delicadeza tão precisa, tão íntima, que parece escrever diretamente nos interstícios entre o que vivemos e o que apenas imaginamos. A cada cena, o filme parece perguntar: o que fazemos com o amor que não pôde acontecer?

Anos depois, já adulta e morando em Nova York, Nora reencontra Hae Sung pela internet. Ele está em Seul, ela está descobrindo quem deseja ser — e entre eles renasce aquela conexão infantil, agora carregada de novas camadas. As videochamadas deles são tímidas, cheias de pausas, mas cada silêncio carrega um mundo. Song transforma esses diálogos digitais em algo quase sagrado; há um cuidado imenso em como a direção enquadra telas, distâncias e impossibilidades. O roteiro entende a profundidade das emoções contidas, permitindo que o amor deles exista sem pressa, sem definições, sem garantias.

Mas Nora, determinada a construir sua carreira literária, decide interromper esse contato. Ela sente que, para seguir seu caminho, precisa soltar aquilo que ficou no passado — ainda que doa. Ela se muda emocionalmente para longe da Coreia pela segunda vez. Hae Sung respeita, mas fica. E o tempo passa. Esse movimento é filmado com uma maturidade rara: Past Lives não trata o amor deles como algo imaturo, e sim como algo impossível naquele momento da vida. É aqui que o filme nos apresenta o conceito coreano de in-yeon, a ideia de que certas conexões atravessam vidas, destinos e circunstâncias, mesmo quando não se realizam plenamente.

Ao mesmo tempo, Nora conhece Arthur em um retiro de escritores. Ele é doce, gentil, vulnerável — um porto seguro. Eles se apaixonam, vivem juntos, se casam. E Past Lives, com uma honestidade desconcertante, mostra que Nora ama Arthur, mas há algo nela que pertence a um passado que ele não viveu. Arthur não é o vilão; muito pelo contrário, ele é um homem que reconhece a profundidade da história que veio antes dele. O filme é generoso ao mostrar que lealdade, amor e memória não são opostos, mas forças que coexistem dentro de nós de maneiras muitas vezes dolorosas.

Tudo muda quando, depois de 24 anos, Hae Sung decide ir a Nova York para ver Nora. Ele não vai para destruí-la, não vai para “tomá-la de volta”. Ele vai para, finalmente, olhar nos olhos dela. As caminhadas deles pela cidade são carregadas de tensão e ternura. Eles conversam muito, mas dizem pouco. Cada olhar é um universo inteiro. Song filma esses momentos com um respeito quase espiritual: não há grandes declarações, apenas o reconhecimento silencioso de que eles se amam — e de que talvez isso nunca tenha sido suficiente para colocá-los no mesmo lugar, ao mesmo tempo, da mesma forma.

No reencontro dos três — Nora, Hae Sung e Arthur — o filme atinge sua potência máxima. Nenhum deles está errado. Nenhum deles é vilão. São três vidas tentando existir onde o amor e o tempo não se alinharam. Arthur sabe que é o presente de Nora, mas também entende que Hae Sung representa seu passado mais profundo. Hae Sung percebe que Nora não pertence mais à vida que ele imaginou para os dois. E Nora, dividida entre raízes e escolhas, percebe que o amor pode ser verdadeiro e, ainda assim, não ser realizável.

O final é uma obra-prima de contenção. Nora acompanha Hae Sung até o carro que o levará de volta ao hotel. Eles se despedem sem arranhões, sem confissões proibidas — apenas com a dignidade de quem entende que algumas histórias são completas mesmo sem final romântico. Quando ele parte, Nora volta para casa e, pela primeira vez, desaba em lágrimas. É o choro pesado de quem reconhece que algo muito importante está acabando. Não por falta de amor, mas porque a vida seguiu. Porque eles mudaram. Porque o tempo, às vezes, é mais forte que o sentimento.

Past Lives te desmonta porque te obriga a revisitar suas próprias vidas passadas — não as espirituais, mas aquelas versões antigas de você que amaram, sonharam, imaginaram futuros possíveis com pessoas que ficaram pelo caminho. É um filme que transforma saudade em matéria-prima e silêncio em linguagem. Ele faz você pensar em quem foi, em quem poderia ter sido e em quem ainda é. E, no fim, deixa uma verdade simples, dolorida e linda: às vezes amar não é ficar; é reconhecer a beleza do que poderia ter sido.
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