Assisti The Glory com a expectativa de um dorama de vingança, mas o que encontrei foi algo muito mais sombrio, ambíguo e, de certa forma, realista. A trama gira em torno de Moon Dong‑eun, uma mulher que, na adolescência, sofreu um bullying extremo — físico e psicológico — de um grupo de colegas. As cenas são fortes: torturas, queimaduras — inclusive o uso de modelador de cabelo para queimá-la — e humilhação constante.
Esses flashbacks mostram o horror da violência escolar e o fracasso de instituições que deveriam protegê-la — professores e autoridades que ignoram os apelos, famílias poderosas que cobrem crimes, socialização de privilégios. O drama não economiza no realismo brutal do trauma: as cicatrizes físicas são visíveis, mas as marcas psicológicas, o medo, o isolamento e o abandono são retratados com sensibilidade. O arco da vingança, então, não é impulsivo — é metódico, calculado e obsessivo: Dong-eun dedica anos da vida a arquitetar a retaliação. A forma como o roteiro estrutura essa vingança — com paciência, estratégia e tensão crescente — é um dos pontos mais fortes da obra. A sua metamorfose de vítima vulnerável para estrategista fria e determinada é perturbadora, mas convincente.
Falando de personagens: além de Dong-eun, há a antagonista central, Park Yeon‑jin — líder do grupo de agressores. Essa personagem, rica, influente, acostumada à impunidade, representa o sistema de privilégios que torna o abuso invisível e impune. A transformação dela — de “rainha do colégio” a mulher bem-sucedida, com marido, filha, carreira — contrasta brutalmente com as cicatrizes da vítima. E à medida que a vingança progride, a derrocada de Yeon-jin se torna dramaticamente satisfatória, mas também dolorosa — a máscara de perfeição vai caindo.
O elenco coadjuvante colabora fortemente para dar complexidade e densidade à narrativa. Entre eles, Joo Yeo‑jeong (interpretado por Lee Do‑hyun) surge como aliado da protagonista, alguém com seu próprio passado complicado, envolto em ambiguidade moral e emoção — o que adiciona camadas interessantes à história. Também há personagens que simbolizam resistência, sobrevivência e complicações: aliados inesperados, vítimas de outras violências, pessoas que ajudam Dong-eun por empatia, o que contrasta com a crueldade dos agressores.
Do ponto de vista da produção, direção e estilo visual, The Glory acerta com força. A direção — por Ahn Gil Ho — e a escrita de Kim Eun-sook conseguem equilibrar tensão, horror e sutileza psicológica. A fotografia, a ambientação, os contrastes de luz e sombra ajudam a criar a atmosfera de angústia, culpa e obsessão, tornando o drama não apenas uma história de vingança, mas um retrato de trauma e suas consequências profundas.
Mas nem tudo é impecável — há aspectos que incomodam, e considero importante dizer isso. A violência é extremamente gráfica; para pessoas sensíveis ou com histórico de trauma, certas cenas podem ser muito pesadas, talvez até angustiantes demais. Algumas subtramas secundárias — personagens coadjuvantes, motivações de alguns “aliados”, ou determinados arcos de apoio — ficam aquém do potencial: há momentos em que personagens parecem subdesenvolvidos, e suas escolhas não têm o impacto que deveriam. Também a própria estrutura de vingança — por mais satisfatória que seja do ponto de vista narrativo — levanta questões morais: até que ponto a vingança cura? Ou apenas perpetua dor? O final, embora muitas pontas sejam amarradas, deixa um gosto ambíguo: justiça é feita, mas a que custo? A protagonista conquista o que queria — mas a que preço emocional? A série parece perguntar exatamente isso, e não dá respostas fáceis.
Em resumo: The Glory é uma obra madura, intensa e corajosa — talvez uma das mais poderosas do gênero thriller/vingança dos últimos anos. Ela não romantiza dor nem trauma: mostra o horror real da violência escolar e as cicatrizes invisíveis que ficam. É uma história de dor, justiça, desespero, e — em algum nível — de reconstrução. Se alguém pergunta se vale a pena assistir, diria: vale, desde que esteja preparado para olhar de frente o lado mais sombrio da condição humana — e para refletir sobre justiça, culpa, impunidade e a busca por reparação.
Esses flashbacks mostram o horror da violência escolar e o fracasso de instituições que deveriam protegê-la — professores e autoridades que ignoram os apelos, famílias poderosas que cobrem crimes, socialização de privilégios. O drama não economiza no realismo brutal do trauma: as cicatrizes físicas são visíveis, mas as marcas psicológicas, o medo, o isolamento e o abandono são retratados com sensibilidade. O arco da vingança, então, não é impulsivo — é metódico, calculado e obsessivo: Dong-eun dedica anos da vida a arquitetar a retaliação. A forma como o roteiro estrutura essa vingança — com paciência, estratégia e tensão crescente — é um dos pontos mais fortes da obra. A sua metamorfose de vítima vulnerável para estrategista fria e determinada é perturbadora, mas convincente.
Falando de personagens: além de Dong-eun, há a antagonista central, Park Yeon‑jin — líder do grupo de agressores. Essa personagem, rica, influente, acostumada à impunidade, representa o sistema de privilégios que torna o abuso invisível e impune. A transformação dela — de “rainha do colégio” a mulher bem-sucedida, com marido, filha, carreira — contrasta brutalmente com as cicatrizes da vítima. E à medida que a vingança progride, a derrocada de Yeon-jin se torna dramaticamente satisfatória, mas também dolorosa — a máscara de perfeição vai caindo.
O elenco coadjuvante colabora fortemente para dar complexidade e densidade à narrativa. Entre eles, Joo Yeo‑jeong (interpretado por Lee Do‑hyun) surge como aliado da protagonista, alguém com seu próprio passado complicado, envolto em ambiguidade moral e emoção — o que adiciona camadas interessantes à história. Também há personagens que simbolizam resistência, sobrevivência e complicações: aliados inesperados, vítimas de outras violências, pessoas que ajudam Dong-eun por empatia, o que contrasta com a crueldade dos agressores.
Do ponto de vista da produção, direção e estilo visual, The Glory acerta com força. A direção — por Ahn Gil Ho — e a escrita de Kim Eun-sook conseguem equilibrar tensão, horror e sutileza psicológica. A fotografia, a ambientação, os contrastes de luz e sombra ajudam a criar a atmosfera de angústia, culpa e obsessão, tornando o drama não apenas uma história de vingança, mas um retrato de trauma e suas consequências profundas.
Mas nem tudo é impecável — há aspectos que incomodam, e considero importante dizer isso. A violência é extremamente gráfica; para pessoas sensíveis ou com histórico de trauma, certas cenas podem ser muito pesadas, talvez até angustiantes demais. Algumas subtramas secundárias — personagens coadjuvantes, motivações de alguns “aliados”, ou determinados arcos de apoio — ficam aquém do potencial: há momentos em que personagens parecem subdesenvolvidos, e suas escolhas não têm o impacto que deveriam. Também a própria estrutura de vingança — por mais satisfatória que seja do ponto de vista narrativo — levanta questões morais: até que ponto a vingança cura? Ou apenas perpetua dor? O final, embora muitas pontas sejam amarradas, deixa um gosto ambíguo: justiça é feita, mas a que custo? A protagonista conquista o que queria — mas a que preço emocional? A série parece perguntar exatamente isso, e não dá respostas fáceis.
Em resumo: The Glory é uma obra madura, intensa e corajosa — talvez uma das mais poderosas do gênero thriller/vingança dos últimos anos. Ela não romantiza dor nem trauma: mostra o horror real da violência escolar e as cicatrizes invisíveis que ficam. É uma história de dor, justiça, desespero, e — em algum nível — de reconstrução. Se alguém pergunta se vale a pena assistir, diria: vale, desde que esteja preparado para olhar de frente o lado mais sombrio da condição humana — e para refletir sobre justiça, culpa, impunidade e a busca por reparação.
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