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Call Me Chihiro japanese drama review
Completed
Call Me Chihiro
0 people found this review helpful
by pedrinhoomota_
30 days ago
Completed
Overall 8.0
Story 8.5
Acting/Cast 8.5
Music 8.0
Rewatch Value 6.0
Há filmes que não apenas contam histórias — eles nos lembram daquilo que, às vezes, esquecemos no caos da vida: a força silenciosa da bondade. Call Me Chihiro é exatamente esse tipo de obra. Ele nos conduz por uma narrativa suave e intimista, mostrando como um único gesto pode ecoar na vida de alguém como a pedra lançada em um lago, criando ondas que se espalham muito além do ponto de impacto. Nunca sabemos o peso de um sorriso, de uma palavra gentil ou de um ato simples que, para o outro, pode significar tudo.

O longa nos apresenta Chihiro, uma ex-trabalhadora sexual que atualmente atende em uma pequena loja de bentôs numa cidade litorânea. À primeira vista, alguém poderia julgá-la por seu passado — e o filme faz questão de nos mostrar o quão superficial e injusto é esse impulso humano. Sua trajetória revela que a vida é feita de conexões: com os outros, com nós mesmos, com aquilo que não se explica, mas se sente. Chihiro é a prova viva de que valor não nasce de rótulos, mas da forma como olhamos e tocamos quem cruza nosso caminho.

Logo na primeira cena, vemos Chihiro brincando com um gato. Simples, aparentemente banal — mas reveladora. A forma como tratamos os animais frequentemente espelha a forma como tratamos pessoas. E com Chihiro isso se confirma a cada interação: ela cumprimenta clientes com calor, entrega afetos espontâneos, escuta com sinceridade. Nada nela soa performático. Ela não tenta conquistar ninguém; ela existe em bondade — pura, transparente, sem cálculo.

Acompanhamos seus encontros ao longo do filme: o senhor sem-teto que ela acolhe com comida, companhia e dignidade até mesmo após sua morte; as duas adolescentes que encontram em Chihiro a aceitação que falta em suas próprias casas; Makoto, o menino solitário cuja tentativa de agradar a mãe vira motivo de conflito e injustiça — e que Chihiro defende com firmeza e empatia. Cada relação revela não apenas o mundo fragmentado dessas pessoas, mas também a capacidade de Chihiro de enxergar além das dores, além das máscaras, além dos julgamentos.

Há ainda seu reencontro silencioso com uma mulher que perdeu a visão — uma relação carregada de camadas, sutilezas e um afeto que, mesmo não dito, parece preencher lacunas que Chihiro carrega desde sempre. Ali, o filme nos lembra que família também se constrói fora dos laços tradicionais — às vezes nos lugares mais improváveis.

Mesmo quando Chihiro se questiona sobre amor e relacionamentos, fica claro que ela não teme amar — ela teme perder sua liberdade e sua verdade em vínculos que exigem mais do que entregam. Talvez por isso ela seja essa brisa que passa, toca, transforma… e segue adiante. Seu nome, “mil perguntas”, encaixa perfeitamente: Chihiro é enigma, é vento, é algo que não se prende, não se define, não cabe em um único significado.

O filme tem uma beleza triste, quase melancólica. Ele mostra pessoas perdidas em seus próprios planetas — isoladas, machucadas, carregando dores silenciosas. E ainda assim, Chihiro consegue conectar esses mundos que pareciam inalcançáveis uns aos outros. Sua bondade funciona como um catalisador: ela une, ilumina, aquece… e, quando cumpre sua missão, parte como quem devolve o sopro de vida ao universo.

A última cena, com Chihiro olhando o horizonte, é especialmente tocante. Pela primeira vez, há uma faísca de pertencimento em seu olhar — como se a própria jornada que ela inspirou nas outras pessoas finalmente tivesse encontrado espaço dentro dela.

A cinematografia contribui de maneira poética para essa atmosfera: luz natural, paisagens abandonadas, tons suaves, tudo compondo um retrato sensível da solidão e da beleza contida nas pequenas coisas. As atuações reforçam essa delicadeza — Kasumi Arimura é simplesmente encantadora, entregando nuances emocionais profundas e autênticas.

Apesar de tudo isso — e aqui entra minha visão pessoal — o filme também é muito lento. Lindo, poético, cheio de significado… mas lento. Tão lento que, em alguns momentos, me distanciou da narrativa. Eu queria ter me conectado mais, sentido mais profundamente aquilo que o filme propõe. A beleza está lá, sem dúvida; a emoção, também — mas às vezes elas chegam devagar demais.

Mesmo assim, Call Me Chihiro é um filme que permanece. Uma obra que lembra que todos nós, em algum momento, precisamos de alguém que nos enxergue como realmente somos. E, principalmente, nos inspira a sermos um pouco mais Chihiro na vida dos outros.
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